Para lá da Paleo: O meu conceito

Desde que adoptei o molde da dieta paleolítica, a minha concepção do que esta era foi evoluindo. Sempre acreditei que -à luz dos conhecimentos que o progresso da ciência e da técnica- a alimentação pode e deve servir os propósitos de cada um, ser adaptada ás necessidades e e idiossincrasias dos mesmos e ser moldável e plástica.

O primeiro mergulho eliminou os processados que restavam na dieta: alguns sumos, bolachas de aveia ou integrais. Associada, a eliminação dos cereais foi a segunda etapa. Depois veio o corte nas leguminosas: essencialmente algum feijão/grão/ervilhas que ainda consumia. A incrementação era gradual. Quando pouco restava a eliminar, veio a preocupação com a qualidade: carne de pasto dos Açores e Ribatejana, peixe e marisco de pescas, produtos vegetais de origem local e livres(o máximo possível) de químicos e outros antibióticos. Os ovos enriquecidos com linhaça foram o salto comportável nos últimos 6-7 meses, substituídos pelos ovos caseiros mal encontrei uma fonte regular para os adquirir. A temperatura da comida e modos de preparação tradicionais que durante milénios preservaram as qualidades nutricionais da nossa alimentação, afastando componentes e mecanismos de defesa como o ácido fítico e outros oxalatos foi um outro salto qualitativo da minha preocupação com a minha saúde, desempenho e aparência no espelho, um aspecto que valorizo e que não escondo que me motiva a ser mais e melhor. Os fermentados: o sauerkraut e o iogurte grego biológico, comprados já preparados e com a melhor qualidade possível. Depois a sua preparação caseira, os primeiros jarros de vegetais a fermentar na cozinha, os primeiros grãos de kéfir a fermentar o leite de côco caseiro. Os caldos de carne, que consolavam o Inverno , com ossos de porcos ibéricos de montado, com a valorosa gelatina e gordura a boiar na superfície, por entre pedaços de carne tenra, suculenta, densa.  Descobri por esta altura o valor incrível do fígado, a sua riqueza nutricional e o seu sabor granulado e sangrento. Daí ás minhas incursões pela solarenga Lisboa, em busca do próximo talho de confiança.

A introdução nas fontes de gordura foi outra barreira quebrada: adicionei algum bacon, alimento que nunca tinha consumido. O abacate que antes era intragável começou a ser uma fonte importante de energia e variedade na dieta. O consumo do óleo de coco foi liberalizado, a medida que a minha pesquisa revelava mais solidez e consenso á volta deste produto. A introdução da manteiga foi um passo relativamente tardio- Nos meus tempos de fobia da gordura, nem a podia ver à frente, entupia-me as artérias e os depósitos adiposos só de olhar. As fontes de gordura que utilizava eram francamente poucas: alguns frutos secos e leguminosas como o amendoim, azeite, a gema dos ovos era não raras vezes descartada nas minhas refeições hiperproteícas(as famosas panquecas de claras de ovos), talvez uma farinha de linhaça pela fibra, e o resto era gordura residual de outros alimentos. Adicionei o primeiro pedaço de Kerry Gold ao meu bife mal passado há cerca de 4 meses. A primeira colher de óleo de palma para um chop de camarão e frango á moda da Nigéria soube deliciosamente, um misto de café forte, consistência de azeite e aroma a noz-moscada e canela.

A introdução da mandioca, primeiro simplesmente cozida depois em puré com leite de côco e erva doce, foi outra adição muito reconfortante. A reintrodução do arroz branco, da batata provaram-se como quebra de dogmas e tautologias que invariavelmente acabam por minar e constranger, mas que uma vez ultrapassadas fazem-nos aprender, crescer e continuar.  Ainda me lembro da 1hora que gastei numa loja étnica a escolher as primeiras algas que viria a consumir, de chegar a  casa e fazer um sushi improvisado com lombos de pescada e sardinha, de aspecto absolutamente terrível, de sabor excepcional.

Paralelamente a todas estas mudanças dietéticas, o alargamento do conceito e da imagética a outras facetas da minha vida: a valorização do tempo em família, das brincadeiras ao ar livre com a minha pequena irmã, as longas caminhadas e passeios fotográficos desprovidas de propósito ,sem um monitor de cardio ao peito para contar as calorias gastas; o abraço dos banhos no mar gelado em pleno Inverno, o sono e o descanso, o relaxamento com uma sessão de ginásio adiada, a economização e melhor gestão da energia empregue no meu programa de treino, peça-chave que me motiva, inspira, melhora e entretém.

Tudo isto foi para lá da Paleo:  adaptei um conceito alimentar e ganhei uma nova forma de ver a vida, de me dedicar aos meus estudos, de perceber os sinais do meu corpo e de me adaptar melhor ao meu espaço. Experimentei, errei, eliminei, adicionei, gostei, detestei, cresci, melhorei. Nunca fiquei colado a uma crença fanática e religiosa nesta dieta: ingiro ocasionalmente lacticínios, chocolate negro, uma bola de gelado artesanal agora no Verão, algum arroz, um batido de proteína de soro de leite quando a carne(ou o dinheiro) falta. Como gordura, como proteína, como hidratos de carbono. Umas alturas mais de uns que de outros. Introduzo elementos novos como um desafio, como um picante, como um motivador.  Suplemento com minerais e ou vitaminas quando sinto que deles preciso, não acredito cegamente no moderno sistema de distribuição alimentar seja capaz de oferecer a diversidade dos alimentos no seu estado mais puro. Não tenho oportunidade de  comprar caça e vegetais e frutas orgânicos numa base exclusiva ou diária, como gostaria, pelo que é importante estar atento a deficiências na dieta. Essencialmente é preciso experimentar: A necessidade é a mãe da invenção, e também na alimentação e estilo de vida deveremos ser críticos, despertos e curiosos e plásticos. A felicidade não é um posto, a saúde também não.

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