Super-Alimentos III: Mel

Numa série de posts iniciada com o Fígado, dedico algum termo ao terrífico alimento que é o mel. Desde logo, umas notas de reserva: como vem sendo apanágio, a escolha dos alimentos deve ser sempre ter em conta mais do que macronutrientes. O conceito de alimentação tradicional, nutritiva e natural deve procurar desapegar-se de tautologias e dogmas. Um dos quais é o da Gordura ser má da mesma forma que os Hidratos de Carbono engordam  O primeiro mito é difundido cegamente desde os anos 60-70, com base em estudos que apenas tiveram em conta ácidos gordos saturados como o palmítico(16:0), descartando que a implicação deste no aumento do LDL-C não é um culpito direto do acidente cardiovascular, sendo que o que o precipita é a inflamação de que todos padecemos em grau variável.

No mesmo trajecto,  tudo o que seja considerado açúcar ou Hidratos de carbono é demonizado na comunidade paleo. Numa atitude que descreve o mar por um peixe que lá vive, esta corrente descarta todos os benefícios associados ao consumo de um alimento não pela sua contituiçaõ, mas por um dos seus constituintes. A questão mais premente é que o consumo de açúcar refinado é sim uma fonte de inflamação, pois obtemos uma parte de um alimento sem os coactores que o acompanham: a fibra da cana do açúcar, as vitaminas do complexo B que assistem na sua metabolização, e a miríade de enzimas que actuam e são vitais. O mesmo acontece com a o opinião sobre o mel: aquele produto áureo  dourado, prezado, raro e indulgente da nossa tradição é hoje um verdadeiro achado na industria alimentar. No mercado americano, basta que um produto tenha uma ínfima percentagem de pólen ou propólis de abelha para ser considerado mel, mesmo que 50-80% da sua constituição seja açúcar refinado adicionado. É a ideia de mel, não é mel. Essencialmente é a reconstituição barata, fraudulenta, incompleta, desconexa, e dismorfe de um produto tão precioso. ão barata, fraudulenta, incompleta, desconexa, e dismorfe de um produto tão precioso.

Na verdade, o mel é um alimento “vivo”, composto por enzimas, vitaminas, antioxidantes que no seu conjunto são um dos mais potentes compostos anti-bacterianos e imuno-potenciadores, equiparado aos mais recentes antimicrobiais. O que o distingue daquilo que chamam de mel comercial( como se não se tivesse nunca comercializado mel real) é desde logo o processo de obtenção. O primeiro é produto laborioso da actividade de colónias de abelhas, que depositam o pólen que recolhem nas redondezas em flores, árvores  arbustos e pastagens verdes ou secas. A cristalização desta seiva segregada e metabolizada pelas abelhas é pois um produto variável, dinâmico e vivo. Varia coma  época do ano, com as flores e sementes disponíveis e com as temperaturas a que é extraído. Aqui reside o busílis da questão: o processo de pasteurização se elimina possíveis bactérias, suprime também todos este compostos do mel. Esse processo de refinamento por acção do calor degrada/elimina ou reduz grandemente  todos os fitoquímicos que encontramos no mel, poderemos também encontrar em frutas e vegetais, sendo eles os grandes responsáveis pelos processos de alcalinização que tão boa fama dão aqueles grupos de alimentos. No fundo, o que acaba por obter coma  compra de mel regular é açúcar. Aí sim, cedo a mão á palmatória e estará melhor sem o consumir.

No entanto, se nos dias que correm Portugal não atravessa o melhor dos momentos, a verdade é que encontramos aqui exemplos de boa qualidade, dedicação empenho e amor a uma causa. Foram estes os factores que me levaram a escrever sobre o mel.  Tive conhecimento do trabalho levado a cabo pelo Mestre Apicultor Harald Hafner, actualmente residente em Portugal e com workshops activos no Jardim Botânico de Coimbra, de onde inclusive retire parte da sua colheita. Harald, austríaco de nascença- acredita na produção de mel portuguesa, pela força da qualidade, da inovação e da manutenção daquelas características que temos vindo a frisar neste artigo. Não ao mel processado, ao aquecimento e pasteurização que o destroem e desvirtuam, são as suas principias mensagens.

A apicultura é, para mim, uma enorme paixão! Uma paixão transformada em profissão. É uma ocupação muito antiga, primordial, como o caçador, o agricultor, o pastor, o oleiro… e que pode ser praticada em quase todo o Mundo.

Uma Conversa sobre Apicultura com Harald Hafner

Adquiri ao Mestre uns frascos de Mel de Carvalho e Mel de Primavera, duas das suas variedades, extraídas em localizações e estações do ano diferentes de paladares indeléveis, cremoso  preenchidos e que surpreendentemente não despertam uma insaciável vontade de comer o frasco inteiro. Pelo contrário, é um prazer que se quer estimar e prolongar, que sartisfaz e adoça sem provocar uma reacção de “bola de neve”. É um produto de elevadíssima qualidade, que recomendo em adição a um cacau quente, batido de coco ou até a um puré de castanhas nesta belíssima época do ano. Uma mera colher de sobremesa(ou duas vá) são o suficiente para perceberem o que de outra forma a minha descrição falha.

Este verdadeiro mel é pois uma óptima adição ao já longo cardápio que chamamos de dieta, e que de uma forma natural nos vai mantendo por aqui.

Tenham um doce dia de Outono!

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